sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Mantras

Despertei dos pensamentos graças à cebola que tinha começado a picar e que me encheu de lágrimas. Queridas cebolas... Porque nos farão chorar? Deixei-me ir. As pontas dos dedos completamente dormentes do frio deste inverno que vem mesmo a cumprir o que é. Gosto quando sinto que as estações se cumprem, mesmo que o gelo nos atravesse os ossos. Não fosse a cebola e ainda cortava um dedo. Deixo que as lágrimas caiam enquanto vou ouvindo os mantras de abundância e prosperidade. Deu-me para isto. É preciso elevar o espirito para sentir o calor e a inspiração a subir também.
"In shrim krim om kuber lakshmi kamla
Devnayae dhan karshinyae swaha" -
não é de certeza para a abundância de secreções de liquido lacrimal - dou uma gargalhada! Queridas cebolas! Também me agrada a fronteira fina entre o riso e o choro. A capacidade de transformar emoções.
Hoje quero transformar uns crepes de legumes, envolver o salteado numa massa fininha, mas fazer no forno para evitar os fritos.
Tenho de apontar quantidades desta vez para não me esquecer. Gengibre picado, cenoura em tiras, couve ripada, rebentos de soja, cogumelos, óleo de sésamo, curcuma...
Eu consigo escrever receitas! 
Há tanto da vida na cozinha!! Sei que pode parecer estranho, mas é tão fácil a analogia entre os alimentos e as pessoas e os respectivos comportamentos. E tão mais fácil intuir que medir, que se calhar é isso que me falta "lá fora". A vida deve ser intuitiva.
As pessoas devem ser como as cebolas, cheias de camadas, sob uma pele fina. Algumas fazem-nos chorar, mas também nos despertam para nos focarmos no que importa. Outras dão-nos conforto, como as maçãs Reinetas, apesar de alguma acidez.
E há as que nos fazem aquecer, as malaguetas e pimentas. As que nos derretem com as suas polpas suculentas e macias, como abraços, como as mangas e as framboesas. Os cogumelos, toscos e insipidos, mas super versáteis e cheios de capacidade de adaptação. Os citrinos, amargos, mas tão refrescantes.
No fim, na cozinha e na vida há todo um festim para saborear, crescer e alimentar. 
Eu consigo escrever receitas! Eu consigo escrever receitas! Eu consigo escrever receitas! 

domingo, 15 de novembro de 2020

Redundâncias



A casa está vazia. A mãe sozinha. Isso aflige-me. Haverá vírus maior que a solidão?

As ruas estão em silêncio. Cheira a queimadas - folhas secas misturadas com nostalgia. O fumo espalha-se pelo ar do jardim e traz vontade de laços e de abraços apertados que decido transformar em broas de batata doce. Sensações de regresso a casa, é o que se precisa. Raizes.
O tempo está agridoce, o ânimo divide-se entre a resiliência e o cansaço. Se calhar nestes dias era melhor não escrever, nem tentar juntar palavras e limitar-me aos envolventes rituais de cozinha, juntar lamúrias, nozes partidas e erva doce.
Na cozinha os pensamentos não me consomem. Raspo uma laranja. As laranjeiras por aqui estão de lotação esgotada com mais frutos que folhas, manchas luminosas e cheias de vida, no meio da paisagem bucólica e desprendida do outono. As árvores também são mães, com os seus rebentos, uns doces, outros amargos, uns de polpas macias e outros de cascas duras. No fim, somos todos ramos da mesma árvore. As mães são casa, são regresso e abraço, são colo e ombro, conforto e também confronto, às vezes.
No espelho, olho o reflexo e lembro-me todas as vezes que disse que ia ser diferente enquanto me saltam as semelhanças à flor da pele, como sinais do sol de verão.
Não devia ser permitido depois de uma vida a criar raízes e a fortalecer ramos e frutos, ficar ali num género de letargia imposta, sem ninguém a fazer companhia e já quase nada para florescer.
Junto as raspas das laranjas à batata doce assada e vou amassando. São delicadas, as pequenas broas. Pensar que já estamos quase no Natal...mais uns dias e faço mas é bolo rei, que gosto tanto!
Deixo o forno aquecer e vou fazer uma caminhada para abrir o apetite e telefonar para casa de três letrinhas apenas.
"- Boa noite, mãe. Como te sentes hoje? Amanhã levo-te broas abraço".

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Fé e Fado

Desde que me lembro de ser gente que há uma série de tradições que gosto de cumprir a preceito. Sem seguir cronologia a rigor e sem me alongar em listas, lembro o dia de Reis em que é obrigatório comer uma romã da qual se guardam 12 sementes na carteira, uma por cada mês, em símbolo de prosperidade e abundância.
Lá para meio do ano, a Espiga, o precioso ramo colhido que é pendurado atrás da porta até ao ano seguinte e que garante que não nos faltará o essencial.
E claro, as velas aos santos que admiro nos seus dias específicos.
Hoje é o dia de São Lourenço. Já preparei a vela.
A minha admiração requer pesquisa.
É preciso conhecer a grandiosidade que faz merecer o meu ritual. Não sou de me dedidicar só porque sim. Não tenho nenhuma veneração especial por Fátima e até cresci lá perto. A minha Senhora é a da Conceição, padroeira de Portugal. Tenho simpatia por Santa Rita de Cassia das causas impossíveis, Santiago do caminho das Estrelas e Santo Expedito das soluções urgentes.
Com Lourenço de Huesca, o Santo que me deu apelido, foi diferente. Não fui eu que o escolhi, foi ele que me escolheu a mim.
Desde adolescente que sonhava um dia morar nas Azenhas do Mar. Morei.
E mesmo hoje há parte de mim que ainda mora. São Lourenço é o padroeiro da vila. Sem querer, soube há dias que é também o santo dos cozinheiros, no mesmo dia em que descobri que algumas tradições populares da Europa meridional chamam à chuva de meteoros das Perseidas, que ocorre com maior intensidade a meados de Agosto, “Lágrimas de são Lourenço”. Por lembrarem as chamas associadas ao seu martírio.
São Lourenço passou a fazer parte das minhas devoções e hoje vou acender-lhe uma vela enquanto preparo a cacerola de grão para servir com massa ao almoço e lhe peço para olhar por mim todos os dias do meu trabalho.
Que assim seja. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Fisica ou Química

Algumas pessoas não gostam nada de mudanças. Eu, se me fosse tão fácil transformar por dentro como é à minha volta, já teria certamente transmutado o meu mau feitio em doçuras de sorrisos constantes e pulmões cheios de capacidade de respirar fundo e fresco quando a temperatura emocional me aquece demais.
Adoro alterar cenários e trocar coisas de lugar, pintar, fazer bricolage, tornar bonito o que é aparentemente desprovido de graça, reciclar objectos antigos, dar vida e brilho ao que já estava triste e sem uso, encostado a um canto. É facil comparar este gosto por promover mudanças com a cozinha que faço todos os dias. Não há muita diferença em pegar nos alimentos e transformá-los em pratos que se tentam não repetir ao detalhe.
Há sempre qualquer coisa que se pode acrescentar ou tirar. Tudo o que fazemos pode sempre ser melhorado. Sei que há pessoas que não gostam nada disto. Precisam daquela necessidade de ter sempre tudo no mesmo sítio para sentirem segurança e se provam determinado prato e gostarem assim, vão querer repeti-lo exactamente com os sabores que os deliciaram inicialmente.
Não é que eu tenha dificuldade em criar raízes e em repetições. Há coisas que faço sempre da mesma maneira há anos e sou muito feliz assim. Há rotinas que me agradam em situações, pessoas e também em locais. Gosto de rituais. Mas nisto da cozinha e das mudanças em geral é a criatividade que traz um frenesim à flor da pele e aí não podem existir regras nem limitações.
A primeira vez que tentei fazer uma Batatinha à Alentejana que ficou a marinar de véspera em vinha d'alhos com os cubos de tofu, temperei com louro e tomilho fresco, deve ter sido para ir buscar a coragem de principiante. O tomilho é a erva da coragem e o louro é consagrado às vitórias, só podia correr bem! Mas hoje, depois de um fim de semana de obras e mudança de decor, feliz com o resultado mas de corpo cansado e denso da falta de praia, sem vaso de tomilho por perto, vou usar alecrim. Sei logo ao abrir o forno que esta mudança vai fazer com que estas batatinhas gulosas fiquem a ganhar.
Ora, esta alteração pode enervar quem já conhece este prato e adora tomilho, mas também já mudei em relação às reacções das pessoas, quando me sinto convicta do que faço. É o meu jeito. Todas as cores são bonitas e tudo tem direito ao seu momento de glória. Todos os sabores fazem falta. E no fim, são as experiências o que levamos connosco. Na barriga e no coração. 

quarta-feira, 22 de julho de 2020

A cor púrpura


"A água de nevão dá pão; a de trovão, em parte dá, em parte não."
Adoro a sabedoria popular! Ontem caiu tanta água de trovão que parecia que até o céu ia cair também.
Em miúda tinha pavor de tempestades e trovoadas, depois fui-me lembrando da minha verdadeira natureza, afinal nasci na pré revolução. O que não me agrada é a antecipação. A temperatura excessiva, a pele a colar e o ar denso e pesado.
Gosto-lhes do som, dos brilhos incandescentes no céu, do compasso de espera entre trovões, do cheiro que fica na terra e do silêncio aliviado que aparece no fim.
Sinto as trovoadas como a necessidade do caos para instaurar novamente a ordem. Já quando estou em tempestade interior, (quem nunca?) há duas bonanças que procuro. Praia e cozinha. A praia baixa-me o ritmo cardíaco. Olhar para a linha do horizonte no mar, lembra-me de ver as situações de outras perspectivas. A maresia entra-me na respiração profunda como um filtro e o banho na água salgada, quando aguento as temperaturas do oeste, renova-me o ânimo e enche-me de inspiração. Na praia, arrumo tudo no sítio certo, paro e respiro. Na cozinha, tal habitat natural, não há pausas, é um constante bailado criativo. Não importa se chove ou se faz sol, tudo é natural.
Sou eu, os alimentos, a música que toca, a luz que entra pela janela ao fim do dia, a minha hora favorita, o som dos pássaros lá fora. As tábuas de corte, as colheres de pau, o fogão e as facas. Em época de batata doce roxa, tudo isto é elevado ao seu expoente máximo. A maioria das pessoas olha para uma batata disforme, acastanhada, cheia de pó da terra e praticamente inodora e não vislumbra o potencial nutrivo nem a beleza escondida no seu interior. A batata doce é um milagre. A roxa é a mais bonita. Tem a polpa mais macia e a cor mais irresistível. Gosto de as assar com tempo que assim concentram mais os sabores do interior. Servem para quase tudo, sopas, purés coloridos, rolos de forno, chips ou tartes. Eu não resisto a tarte de batata doce de cor púrpura. Amasso a polpa com farinha de amêndoa e vagem de baunilha. Dou-lhe a textura cremosa que a vai segurar depois de fria com óleo de côco. Não precisa de açúcar nenhum. São tão doces como os momentos da vida quando aprendemos a apreciar tudo o que faz parte da natureza. Mesmo as tempestades.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Despertar

-Queridas pessoas que passam a vida a lamúriar e a queixar-se de tudo, plenas de resmunguice, experimentem passar um dia dentro de uma cozinha a fazer comida e jejum em simultâneo.
Estou a proibir-me de lamber dedos, depenicar as pontas das cenouras da sopa, fugir a sete pés da ideia de ir comendo os pêssegos enquanto os corto para a tarte. Não que precise provar, conheço os sabores de cor. Mas por norma, eu a preparar comida, tenho algumas semelhanças com um esquilo ou outro roedor qualquer que agarra, põe na boca, mastiga e armazena para depois. Isto sim, verdadeira ironia do destino!
Na última conversa astrológica que tive com o meu amigo João Paulo, que é brilhante nessa área, lembro-me de me ter dito que nos anos próximos iria sentir-me com a minha verdadeira idade.
Isto passou-se há uns três ou quatro anos e na altura fez-me uma confusão imensa. O que toda a vida senti e transmiti aos meus filhos, é que o corpo vai crescendo, as emoções vão-se adaptando aos caminhos e às histórias de que somos protagonistas, mas a criança interior está sempre lá, a lembrar-nos da nossa essência e do que - realmente - importa.
Hoje, com 46 primaveras e uns quatro anos depois da conversa com o João, começo finalmente a perceber o que ele me queria dizer. Acho até que começou a ficar mais claro há quase um ano. O relógio mudou ao aproximar-se dos 45. A criança está cá, graças ao grande Cosmos, mas começa a ter noção que há coisas que se estão a metamorfosear. É bom, na sabedoria que nos traz conforto ao que sabemos que somos e não abdicamos e, também flexibilidade para compreendermos que em determinadas situações conseguimos ser melhores, diferentes, com um poder de adaptação e agilidade de processamento, que sempre tivemos, mas que estamos agora a tomar cada vez mais consciência.
A parte mais difícil de assimilar, é que o nosso corpo sempre teve noção disto e agora mostra-nos que somos nós que estamos desfasados no ritmo. O espelho confirma. A balança susurra. Os botões dos vestidos saltam. Os ténis pedem caminhadas e os fatos de treino escondidos no fundo das gavetas teimam em voltar ao activo.
Os pulmões empurram com necessidade de respirar melhor e cérebro lembra que precisa de mais oxigenação para ontem! Não há como evitar. É preciso alterar hábitos e rotinas, dar carinho e cuidado, criar regras para tomarmos conta de nós como gostamos de tomar dos outros.
O cheiro da vagem de baunilha na Tarte de Pêssego começa a desviar-me o foco. Acordei às oito e em circunstâncias de go with the flow, já tinha comido umas belas torradas com a caneca de café cheio de espuma. A meio da manhã já marchavam dois pêssegos da caçarola que os cozeu para a tarte e, de certeza, uns punhados de nozes ou o que me passasse pela frente, entretanto. Mas isso era a outra eu, a de ontem.
Hoje é dia de voltar à sintonia com o corpo e com o resto. Os impulsos que esperem! Agora, vou almoçar um copo de seiva com sumo de limão e caiena e fingir que não estou a cheirar nada do que está à minha volta. 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Orbis

Acabei de ver uma estrela cadente. O céu está lindo e a noite cheia de sons de silêncio da natureza.
A temperatura tem estado tão elevada que as noites frescas nos parecem um mito campestre distante. Jantamos no terraço à luz de velas e da lua minguante.
Quando se ama e se cozinha para outros, uma refeição nunca é apenas uma necessidade fisiológica. Alimentar nunca é só uma rotina. Há sempre todo um cenário que vai muito além das matérias no prato.
As velas não são exclusivas de rituais de conquista. A toalha é mais que uma base têxtil de suporte a utensílios, os copos são mais que um recipiente, a comida não será jamais uma simples forma de recarregar o corpo com energia nem tampouco de somente satisfazer a gula.
É preciso ver sempre tudo além do óbvio mundano.
Há poesia e uma razão maior quando se faz com amor.
Em tempos participei num workshop em Sintra com a querida maga Isa, com quem aprendi muito sobre o Egipto, além das icónicas pirâmides.
Os egípcios acreditavam que determinada simbologia tinha poderes mágicos e marcavam o pão com um utensílio idêntico ao ferro que usamos para queimar o açúcar no leite creme, porque essas marcas, esses símbolos gravados na comida, ao serem ingeridos transferiam a sua magia aos comensais.
De certa forma, acredito que em tudo o que colocamos uma boa intenção - amor - essa magia, a verdadeira magia, afinal, acaba por passar para quem nos rodeia.
A entrega e dedicação na escolha do detalhe, a toalha, o menu de acordo com o gosto de quem come, as velas que dão a média luz que nos lembra que há mais brilho quando está escuro, o tempo que dedicamos a ralar os vegetais para a salada, para que tenham os sabores e as texturas ideiais mas que as cores também sobressaiam e tornem a salada numa paleta que lembra um quadro, porque também uma salada, é muito mais que um mero acompanhamento. Os frutos vermelhos que flutuam nos copos de cristal que pertenceram ao enxoval de casamento da minha avó, o céu cheio de estrelas e algumas até caiem só para podermos pedir desejos. Vou desejar, que num mundo que tantas vezes me parece uma noite escura, tenha sempre a capacidade de poder iluminar as vidas de quem me rodeia. 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Deméter

Hoje vou fazer Spring Rolls e acordei entusiasmadíssima a pensar nas cores imensas dos legumes e das frutas que quero usar no meio dos noodles que vão dar corpo às folhinhas de arroz.
São curiosas as razões que nos movem em determinados sentidos, para certos caminhos e por vezes também são inexplicáveis, mas não neste caso específico.
Uma vez, contei resumidamente a minha história de vida e disseram-me que parecia que já tinha vivido umas três numa só.
Às vezes sinto isso, mas nunca me esqueço que tenho muita sorte e que sou uma verdadeira privilegiada.
Também me perguntam porque decidi mudar-me para o centro do país e se calhar, para a maioria das pessoas seria importante uma quantidade enorme de factores de selecção ponderados.
Claro que a proximidade relativa à capital e as boas escolas para as crianças foram tidas em consideração, mas no meu caso e eliminando as condições fundamentais para o todo, o que me moveu foi a fertilidade do local. Não sei se me faço entender. Já morei em quase todas as zonas do país a norte do Tejo. Falta-me o sul, o Alentejo, isso ainda está para acontecer um dia. Agora estou aqui, no meio, na simetria que me faltava. Nunca pelos sítios por onde passei havia esta fartura a brotar da terra. Para onde quer que me vire nasce alguma coisa do chão ou dos ramos das árvores. Pereiras, macieiras, pessegueiros, ameixeiras, videiras carregadas de uvas, campos inteiros cultivados de acelgas ou batatas, couves, melões ou pepinos. Para quem dá importância ao que come, a zona é um autêntico festim. Atenção, uma das principais atrações à volta é a Praça da Fruta, por isso, o encantamento não foi só a mim que apanhou. À minha frente tenho beterrabas, cenouras, pepinos, couve roxa e alho francês que trouxe da praça. Também já parti em tirinhas a manga e o abacate. Está muito calor e só apetecem saladas e vegetais frescos e hidratantes. Pois, já agora é melhor fazer um chá gelado, tenho umas folhas de hortelã a libertar cheiros que sorriem para mim. Estes rolos, como as folhas de arroz são muito finas e vou recheá-los com muitas cores bonitas ficam com um aspecto que parecem pintados de arco íris.
Somos o que comemos, por isso parece-me bem.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Clepsidra

Há de certeza um ou mais pontos de viragem durante a vida, tipo, a puberdade, a maternidade e a menopausa e ainda as rectas, curvas e contra-curvas que apanhamos pelo meio e que nos vão levando pelos caminhos com mais ou menos contorcionismo.
Sejam os factores biológicos, celulares, metabólicos, ou cronológicos - tanto faz - é o tempo, o tempo em nós.
Até uma determinada fase da vida, não sei quando ao certo, dá sempre para tudo, os dias parecem não ter fim, damo-nos ao luxo de ansiar pelos fins de semana, férias, pelos jantares, passeios, tardes de sofá ou festarolas com os amigos.
Sempre uma vontade que os dias passem rápido para usufruírmos disto ou daquilo. Depois, vem o tal ponto de viragem e tudo muda e nem sabemos como.
-"Já hoje é quarta feira? Ainda ontem foi domingo" ou " Vamos a meio de Julho? Parece que acabámos de arrumar os enfeites de Natal".
E em simultâneo neste ritmo alucinante vamos tentando pôr amizades em dia, cumprir promessas de visitas por fazer, os jantares e passeios vão-se adiando e afazeres ficam por consumar, porque o tempo parece viajar mais rápido que a luz e muito mais que nós.
Que saudades de uma viagem! Não que não me farte de andar por aí em espírito, em praias de mares mornos e sem ondas ou em densas florestas de chuvas tropicais, ou no meio de mercados coloridos, cheios de frutas e legumes frescos, especiarias e flores, mas apetecia mesmo era pegar na mochila e levar também o corpo para lugares bonitos. Tenho é que me levar para a cozinha que hoje a viagem vai ser outra, se bem que é quase uma ida a Itália, a minha Lasanha Vegetariana, que me lembra outra vez dos por fazer e dos urgente ir. Florença espera-me há uns anos e por três vezes estive para ir e tive que adiar por razões maiores.
Vou dedicar o menu a essa viagem destinada por cumprir, decido eu enquanto tiro a pele do tomate para o molho!
Já apanhei as acelgas e o manjericão e a cebola já palpita no azeite com o louro. Quem me dá massas frescas, dá-me quase tudo! Como se diz em Roma - Mangia bene, ridi spesso, ama molto.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

A Viagem

Cada vez que dou por mim estendida na toalha, de pés na areia, cheiro e som de mar e o sol a brilhar, sinto que sou uma verdadeira privilegiada! A temperatura amena e a praia quase vazia. Ainda passei uns minutos a fazer uma das minhas coisas favoritas - procurar conchas bonitas e seixos peculiares.
Já tenho uma colecção tão grande de pedras que um dia construo uma casa, penso eu com o exagero típico que me caracteriza. Esta mania de coleccionar calhaus e afins de certeza que vem da minha irmã Margarida que julgo que ainda hoje tem um belo espólio de fósseis e pedras bonitas. Encontrei uma linda junto ao mar no Baleal, castanha com três riscas douradas que parecem pintadas com régua de tão perfeitas e simétricas que são. Que tesouro!!
Hoje mereço usufruir! Passei a manhã a tentar cozinhar o perfeito byriani de legumes, e juro, juro mesmo, que se não ficou perfeito, esteve quase lá perto. E eu nem tenho grande jeito para arroz. E sim, já experimentei todas as fórmulas e já aceitei a condição. Além disso, prefiro usar o integral e esse raramente me falha.
As especiarias rebetam de vida no azeite quente e na cebola alourada. Cheira a cravinho, cominhos, curcuma, canela e coentros, os cinco 'c' dos sabores essenciais na cozinha indiana. Ou na que eu tento cozinhar, pelo menos. E falta o cardamomo, que me vai dar um suave tom alimonado.
Um dia hei de voltar a morar junto ao mar, divago eu no meio dos aromas das especiarias que me transportam numa viagem cheia de cor. Cada vez dou mais valor aos prazeres simples. Podem tirar-me da praia, mas não tiram a praia de mim.
Não compreendo bem, nesta minha mente optimista e com predisposição automática para ver o melhor das situações, como é que há pessoas que acham que amadurecer não é bom. Eu olho para trás e para as parvoíces que me tiraram noites de sono e trouxeram desassossego e ansiedade e respiro fundo em gratidão por esta capacidade em crescendo de conseguir filtrar o que mais me acrescenta do que me tira simetria e equilíbrio.
Tantos anos para assimilar o que à partida sempre foi óbvio. Aceito de bom grado as rugas e vincos de expressão, o metabolismo lento que me assentou nas coxas com vontade de ficar e que me lembra do quanto sabe bem acalmar o ritmo, em troca da sabedoria adocicada que sinto que a idade me vai trazendo.
E neste ritmo envolvente de mexe tacho, com os perfumes dos sabores que vão dançando em vapores pela cozinha, sonho com a casa em frente ao mar com todas as pedras que vou apanhando, o alpendre coberto e a cama de rede, os tomilhos e alfazemas ao fundo e o sol dourado a deixar-se ir num novo dia.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Intervalo

Valha-nos a Sta padroeira dos optimistas que para onde quer que me vire só ouço lamúrias! Ando na praça de phones nos ouvidos. A música protege-me do que prefiro não ouvir. Agora que até sinto que estou num momento intervalo, deixem-me usufruir da minha bolha, que logo volto!
O momento intervalo é uma daquelas fases em que sentimos harmonia em nós mesmo que à volta a coisa possa estar em desassossego. É assim uma espécie de bem estar sereno em que parece que tudo está no sítio que deve estar e tem sabor a intervalo do grande Cosmos. Ou fizemos alguma coisa para merecer ou o Cosmos está distraído com outra coisa qualquer. Seja como for, há que deixar a bênção fluir e agradecer.
A abundância da fruta local deixa-me feliz! São bancas cheias de alperces, pêssegos, abrunhos, cerejas e morangos. E melões brancos e verdes, meloas e melancias. As pêras da terra também já estão boas para colher e foi a isso que vim. Pêra rocha com alperces, soa-me a combinação perfeita para o que preciso.
Esta fartura de cores e cheiros, a riqueza que a natureza nos oferece é quase o que basta para me encher de gratidão e começar o dia a sorrir. Ter trabalho e pessoas para alimentar também. E saúde e coragem, fundamentais, claro! E abraços de quem amamos. E um pouco de sol e mar e já temos quase tudo!
É dia de experiências novas e vou pegar nas pêras e alperces e fazer uma baklava. Há qualquer coisa na comida étnica que me encanta. Não que a nossa gastronomia não dê pano para mangas ou nozes para nougat mas parece sempre que as especiarias e ervas do oriente me dão uma sensação de conforto, tipo regresso a casa. Um dia tive uma cartomante que me disse que numa outra vida fui da India e ainda noutra da Grécia. É um facto que adoro comida indiana e mitologia grega!
E pelos vistos fartei-me de andar por outros mundos a reunir uma carrada de delícias na alma para as transportar agora para a cozinha e lhes dar vida do meu jeito. As pêras já cozem com os alperces em lume brando com cardamomo, pau de canela, cravinho e flor de anís. Vão apurando devagarinho e libertando sabores e sucos até ficarem em geleia para humedecerem as folhas de massa filo que já estão polvilhadas de pistacios torrados e picados. Ai se as palavras tivessem cheiro! 

Coração na lua

O dia amanhece nublado. Será só aqui ou também no resto do mundo? Aqui é um mundo. À parte do outro.  Já nem me lembro bem o ano exacto em q...