Nunca percebi porque é que quando somos crianças nos é legítima a curiosidade de saber como funciona o mundo e as pessoas - ah, é a idade dos porquês, mas depois, já crescidos soa a parvo perguntar sobre tudo. Como se alguém tivesse aprendido alguma coisa entretanto e nós ainda tivessemos 5 anos...Tive a sina de nascer com esta mente filosófica que às vezes parece uma maldição.
Não basta descascar cebolas! Se nos fazem chorar há-de ser por alguma razão! Lembro-me de ser miúda e estar sentada na mesa da cozinha a ajudar a minha mãe a preparar não sei o quê e ter sentido um verdadeiro momento de inspiração ao olhar para uma cebola. Aposto que isto soa a parvoíce e eu até ainda era uma garota, mas sei que olhava com olhos de ver. -"Olha, mãezinha, as cebolas são tão bonitas! E parece que a parte de fora maior vai abraçando as de dentro cada vez mais pequeninas"
Fiquei fascinada com as camadas e as simetrias enquanto a minha mãe deve ter pensado - "no meio de quatro, deve ser natural uma vir com um parafuso a menos." Acho que ainda hoje quando me vê a chorar ou a rir, porque às vezes tenho verdadeiros ataques de riso ou de choro que nem estranho e me sabem a purga emocional (que é verdadeiramente libertadora), ela ainda pensa e até diz em voz alta, às vezes -"Meu Deus, onde terei falhado?" O meu pai iria compreender. Também era todo emocional e resmungava quando não se sentia compreendido. Eu que sou a mais nova tive menos tempo dele...
Pronto, sou muito contemplativa mas isso ajuda-me a manter a capacidade de ver o melhor nas coisas e nas pessoas. E nós também somos camadas envolvidas numa pele fina, certo? Não libertamos ácido sulfénico quando nos partem ao meio, mas lá temos as nossas defesas. Ainda a semana passada dizia ao meu mais velho que a vida faz-nos crescer em corpo e os tropeços e frustrações nos tornam mais fechados e cautelosos, mas a criança está lá sempre na essência e que sentir assim é uma benção. Ele também olhou para mim com aquele ar -"Whatever"... que chegou de Londres há pouco e ainda vem cheio de tiques na linguagem. Onion bahji, my dear. Cebolinhas que nos vão fazer chorar por mais.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
quarta-feira, 29 de abril de 2020
Teremos sempre Paris
Fiz uma jura. Prometi-me que hoje não vou refilar! As lamúrias vão-se entranhando sem querer e o meu cérebro às vezes soa-me a uma velha rezingona. Hoje hei-de conseguir desviar o foco para a beleza! Mandamento do dia - não refilarás!
Até começou bem. Ainda no quente aconchego dos lençóis e em jeito de câmara lenta percebo que está a chover. E isto podia ser logo o primeiro resmungo do dia, mas o som da chuva é capaz de ser o meu som favorito de todos, assim no sossego, quando o dia ainda deixa ouvir tudo do que importa. E hoje eu estou mesmo determinada! A chuva é uma benção e eu levo as juras muito a sério. E com esta determinação faço umas papas de aveia com banana. Tenho que dar tréguas à balança e parar com o café. Preciso mudar o meu ritmo para não empurrar o da vida que decidiu abrandar.
É incrível o quanto nos habituamos a funcionar com o raio da cafeína que em abstinência parece que passámos a noite toda em claro. Já estou a reclamar, pronto! Faço uma cevadinha a sorrir. O riso é indutor e assim volto ao foco, mesmo que não consiga parar de bocejar. Sorrir e bocejar ao mesmo tempo é verdadeiro desafio!
Sento-me a fazer a lista das compras para compor a despensa. Tenho de ir à Vila buscar cogumelos. Vou fazer um festim! Isto transporta-me a um dos episódios da minha vida, grávida do meu filho mais velho a assistir à estreia da Cidade dos Anjos em exibição no cinema em Vilamoura.
Há uma cena no filme em que a Meg Ryan, numa biblioteca lê um excerto de um livro de Hemingway que fala de comida. E eu bem digo que a vida nos vai dando montes de pistas, que no meu caso me iam passando ao lado. Reza assim - "Comi as ostras, que possuíam um forte sabor a água do mar e um leve travo metálico que o vinho branco e fresco ia neutralizando para lhes deixar somente o gosto próprio da sua massa suculenta, e, à medida que ia bebendo o líquido frio de cada concha e o fazia descer com o vinho fresco e bem apaladado, ia deixando de sentir a tal impressão de vazio."
Passou-me ao lado o autor durante a sessão de cinema.
Ponto 1- nunca comi uma ostra na vida.
Ponto 2- não sou fã de vinho branco.
Ponto 3- esta frase bateu-me de tal maneira que no final fui à bilheteira perguntar se sabiam o nome do livro citado no filme.
Ponto 4- Há pessoas incrivelmente boas no mundo e mesmo pacientes e prestáveis.
Estar muito grávida deve ter contribuído. É do senso comum que se têm desejos estranhos. Lá me deram o número de telefone para ligar que iam tomar atenção a esse detalhe na sessão seguinte.
"A moveable feast", traduzido para português "Paris é uma festa".
Como encontrei o livro depois de o procurar incansavelmente numa época em que não era tão simples quanto agora, fica para outra história. Agora vou cozinhar um banquete!
Até começou bem. Ainda no quente aconchego dos lençóis e em jeito de câmara lenta percebo que está a chover. E isto podia ser logo o primeiro resmungo do dia, mas o som da chuva é capaz de ser o meu som favorito de todos, assim no sossego, quando o dia ainda deixa ouvir tudo do que importa. E hoje eu estou mesmo determinada! A chuva é uma benção e eu levo as juras muito a sério. E com esta determinação faço umas papas de aveia com banana. Tenho que dar tréguas à balança e parar com o café. Preciso mudar o meu ritmo para não empurrar o da vida que decidiu abrandar.
É incrível o quanto nos habituamos a funcionar com o raio da cafeína que em abstinência parece que passámos a noite toda em claro. Já estou a reclamar, pronto! Faço uma cevadinha a sorrir. O riso é indutor e assim volto ao foco, mesmo que não consiga parar de bocejar. Sorrir e bocejar ao mesmo tempo é verdadeiro desafio!
Sento-me a fazer a lista das compras para compor a despensa. Tenho de ir à Vila buscar cogumelos. Vou fazer um festim! Isto transporta-me a um dos episódios da minha vida, grávida do meu filho mais velho a assistir à estreia da Cidade dos Anjos em exibição no cinema em Vilamoura.
Há uma cena no filme em que a Meg Ryan, numa biblioteca lê um excerto de um livro de Hemingway que fala de comida. E eu bem digo que a vida nos vai dando montes de pistas, que no meu caso me iam passando ao lado. Reza assim - "Comi as ostras, que possuíam um forte sabor a água do mar e um leve travo metálico que o vinho branco e fresco ia neutralizando para lhes deixar somente o gosto próprio da sua massa suculenta, e, à medida que ia bebendo o líquido frio de cada concha e o fazia descer com o vinho fresco e bem apaladado, ia deixando de sentir a tal impressão de vazio."
Passou-me ao lado o autor durante a sessão de cinema.
Ponto 1- nunca comi uma ostra na vida.
Ponto 2- não sou fã de vinho branco.
Ponto 3- esta frase bateu-me de tal maneira que no final fui à bilheteira perguntar se sabiam o nome do livro citado no filme.
Ponto 4- Há pessoas incrivelmente boas no mundo e mesmo pacientes e prestáveis.
Estar muito grávida deve ter contribuído. É do senso comum que se têm desejos estranhos. Lá me deram o número de telefone para ligar que iam tomar atenção a esse detalhe na sessão seguinte.
"A moveable feast", traduzido para português "Paris é uma festa".
Como encontrei o livro depois de o procurar incansavelmente numa época em que não era tão simples quanto agora, fica para outra história. Agora vou cozinhar um banquete!
terça-feira, 28 de abril de 2020
Fibra
Devia beber mais água. Manter o corpo hidratado faz-me sentir saudável. E comer maçãs e apanhar sol quando a chuva me deixa.
Só agora me dei conta que passo a vida a tocar na cara. É comichão nos olhos, no nariz e até nas maçãs do rosto que nem sabia que também se queixavam. Será só agora que sei que não devo?
Hoje sonhei que estávamos a viver um sonho. Um sonho no sonho. Se calhar estamos.
Acordei com a buzina da padeira. Eu e a aldeia inteira! Podem faltar abraços e passeios à beira mar mas não pode faltar a padeira nem o pão.
Estou dividida entre a frustração de não poder fazer nada do que me apetece e a preguiça de não me apetecer fazer nada do que devo. Tenho que fazer sopa! Mas gosto. Muito. O ritmo da sopa funciona como um mantra. Um mantra para uma preparação. É como uma poção mágica de um caldeirão digno de Merlin.
A sopa tem tudo e até as crianças adoram a minha. Que grande vaidade!
O segredo, podia usar o clichet - é o amor. O amor é o segredo para tudo. Na sopa também é o tempo. A cenoura precisa de vagar para amaciar a fibra e aveludar o puré. Cozer muito lentamente, como se nem existisse. Deixar-se ir como num desmaio que faz toda a diferença no resultado da textura. Que poesia, eu na cozinha a pelar raízes! As cenouras são raízes. Há que chamar as coisas pelos nomes. Depois é preciso a simetria, o equilíbrio do palato, com o nabo e a cebola. O resto que vem depois, tanto faz, só acrescenta. Entra tudo na panela sem água, com fio de azeite e magia acontece sem nenhum truque ou ilusão, em perfeita sincronia vegetal.
Estas rotinas dão cor ao dia e ao ânimo. O sol dignou-se a aparecer. Finalmente!
Faço uma pausa na cozinha. Já nem ligo a televisão. Junto os livros por ler, determinada a honrar-lhes o propósito.
-"Mindfulness para totós" - o primeiro da fila. Faço um chá com hortelã fresca.
Sento-me na cadeira lá fora, cheira a flores por todo o lado. As alfaces estão quase boas para colher e para a semana já consigo estrear os espinafres. A horta está linda, apesar dos brócolos terem mais lagartas que folhas. Cansei-me de as mandar embora. Fizemos um pacto. Lá as adoptei à força. Destinei-lhes um pé, os outros são nossos. Pareceu-me justo. Fiquei em paz e ainda nem abri o livro...
Só agora me dei conta que passo a vida a tocar na cara. É comichão nos olhos, no nariz e até nas maçãs do rosto que nem sabia que também se queixavam. Será só agora que sei que não devo?
Hoje sonhei que estávamos a viver um sonho. Um sonho no sonho. Se calhar estamos.
Acordei com a buzina da padeira. Eu e a aldeia inteira! Podem faltar abraços e passeios à beira mar mas não pode faltar a padeira nem o pão.
Estou dividida entre a frustração de não poder fazer nada do que me apetece e a preguiça de não me apetecer fazer nada do que devo. Tenho que fazer sopa! Mas gosto. Muito. O ritmo da sopa funciona como um mantra. Um mantra para uma preparação. É como uma poção mágica de um caldeirão digno de Merlin.
A sopa tem tudo e até as crianças adoram a minha. Que grande vaidade!
O segredo, podia usar o clichet - é o amor. O amor é o segredo para tudo. Na sopa também é o tempo. A cenoura precisa de vagar para amaciar a fibra e aveludar o puré. Cozer muito lentamente, como se nem existisse. Deixar-se ir como num desmaio que faz toda a diferença no resultado da textura. Que poesia, eu na cozinha a pelar raízes! As cenouras são raízes. Há que chamar as coisas pelos nomes. Depois é preciso a simetria, o equilíbrio do palato, com o nabo e a cebola. O resto que vem depois, tanto faz, só acrescenta. Entra tudo na panela sem água, com fio de azeite e magia acontece sem nenhum truque ou ilusão, em perfeita sincronia vegetal.
Estas rotinas dão cor ao dia e ao ânimo. O sol dignou-se a aparecer. Finalmente!
Faço uma pausa na cozinha. Já nem ligo a televisão. Junto os livros por ler, determinada a honrar-lhes o propósito.
-"Mindfulness para totós" - o primeiro da fila. Faço um chá com hortelã fresca.
Sento-me na cadeira lá fora, cheira a flores por todo o lado. As alfaces estão quase boas para colher e para a semana já consigo estrear os espinafres. A horta está linda, apesar dos brócolos terem mais lagartas que folhas. Cansei-me de as mandar embora. Fizemos um pacto. Lá as adoptei à força. Destinei-lhes um pé, os outros são nossos. Pareceu-me justo. Fiquei em paz e ainda nem abri o livro...
domingo, 26 de abril de 2020
Tisana
Quando acabei o preparatório tive uma psicóloga de orientação vocacional que me fez uns testes para me ajudar a encontrar a rota seguinte. A professora Etelvina Cristóvão, uma querida, com quem ainda troquei algumas cartas depois, acreditava piamente que eu devia seguir a veia criativa, apesar dos resultados dos testes apontarem que tinha mais aptidões para matemática (todavia as notas tinham sido péssimas nesse ano) e raciocínio numérico e para línguas (se calhar já em alusão às de gato ou de veado). A criatividade era a terceira coluna mais alta do gráfico.
Não sei se posso ou devo responsabilizá-la, mas o que é certo é que foi ela que me meteu à frente os formulários de inscrição do Fit Moda, na Rua do Salitre, ainda por cima mesmo ali ao lado da Alexandre Herculano, onde trabalhava a minha irmã Ana.
A Ana é a menina do meio. Somos as três muito parecidas na estrutura, mas a do meio é a mais romântica. Acho que ainda hoje ela sonha que um dia virá um príncipe num cavalo branco que a levará para um dos castelos do país dos felizes para sempre. Um mulherão, ainda assim. Lutadora e com muito pêlo na venta. Condição genética, de certo. Cresci muito com ela. Apesar de termos muitos interesses comuns, é muito mais feminina e vaidosa que eu. A Nita cuida-se e enfeita-se de "tiaras e vestidos de princesa". Eu sempre senti que sou a princesa, o cavalo branco e o príncipe, e que já estou quase sempre num "país feliz". Quando saímos juntas para almoçar e pôr a conversa em dia, ela entra em todas as lojas trend de moda e decoração, tem um incrível sentido estético, a minha do meio, enquanto eu aguardo pacientemente numa Bertrand ou Fnac qualquer a descobrir o que há de novo em música e livros. Eu a ser pseudo intelectual e ela com a beleza e a estética que a alimenta. Um dia ofereceu-me um livro que disse que era muito bom, mas eu, leitora aficcionada e conhecedora, achei que era cor de rosa demais para mim e deixei-o a um canto para não ser bruta e lhe confessar que o meu elevado nível intelectual não se permitia a esse tipo de leitura. "Os Homens são de Marte e as mulheres são de Vénus."
E eu amo mitologia. Isso sim, leitura própria e evolucionista! Passo a dicotomia.
Guardei-o numa fila da estante junto aos livros que só enfeitam e que ficam no esquecimento. É curioso como a vida se encarrega sempre de nos fazer beber grandes chávenas de chá de humildade, o que é bom para a tosse, enquanto nos dá pistas do que importa e que estamos todos tão ligados uns aos outros, mesmo quando nem temos noção do quanto.
Há muitos anos atrás, depois do meu pai morrer passei por uma fase muito dolorosa e isso abalou bastante o meu relacionamento que aparentava mesmo estar a chegar ao fim. Já em aceitação e a pensar que era melhor começar a fazer triagens e a arrumar caixas com pertences, estou de volta dos livros, e do nada, há um que me cai mesmo em cima do dedo grande do pé e de certeza me fez gritar um palavrão enorme e feio do qual não me orgulho! Sentei-me no chão, ainda a praguejar e amaldicionar o ter nascido tão desastrada no meio de contorções e grunhidos, mas lá me decidi a abrir pela primeira vez o livro da Nita. Julgo que às vezes nem são tanto os conteúdos nem todos os detalhes de um cenário inteiro, mas sim a nossa rendição ao que somos e a necessidade urgente de sermos melhores. Li-o. Todo! Tomei notas mentais. E juro que aprendi coisas que nunca ninguém me tinha ensinado. Consciente, decidi testá-las. E por milagre, acaso ou destino, a relação durou mais dez anos. Passei a dar muito mais valor à mana do meio e estar muito mais atenta ao que me cai em cima dos dedos dos pés.
Não sei se posso ou devo responsabilizá-la, mas o que é certo é que foi ela que me meteu à frente os formulários de inscrição do Fit Moda, na Rua do Salitre, ainda por cima mesmo ali ao lado da Alexandre Herculano, onde trabalhava a minha irmã Ana.
A Ana é a menina do meio. Somos as três muito parecidas na estrutura, mas a do meio é a mais romântica. Acho que ainda hoje ela sonha que um dia virá um príncipe num cavalo branco que a levará para um dos castelos do país dos felizes para sempre. Um mulherão, ainda assim. Lutadora e com muito pêlo na venta. Condição genética, de certo. Cresci muito com ela. Apesar de termos muitos interesses comuns, é muito mais feminina e vaidosa que eu. A Nita cuida-se e enfeita-se de "tiaras e vestidos de princesa". Eu sempre senti que sou a princesa, o cavalo branco e o príncipe, e que já estou quase sempre num "país feliz". Quando saímos juntas para almoçar e pôr a conversa em dia, ela entra em todas as lojas trend de moda e decoração, tem um incrível sentido estético, a minha do meio, enquanto eu aguardo pacientemente numa Bertrand ou Fnac qualquer a descobrir o que há de novo em música e livros. Eu a ser pseudo intelectual e ela com a beleza e a estética que a alimenta. Um dia ofereceu-me um livro que disse que era muito bom, mas eu, leitora aficcionada e conhecedora, achei que era cor de rosa demais para mim e deixei-o a um canto para não ser bruta e lhe confessar que o meu elevado nível intelectual não se permitia a esse tipo de leitura. "Os Homens são de Marte e as mulheres são de Vénus."
E eu amo mitologia. Isso sim, leitura própria e evolucionista! Passo a dicotomia.
Guardei-o numa fila da estante junto aos livros que só enfeitam e que ficam no esquecimento. É curioso como a vida se encarrega sempre de nos fazer beber grandes chávenas de chá de humildade, o que é bom para a tosse, enquanto nos dá pistas do que importa e que estamos todos tão ligados uns aos outros, mesmo quando nem temos noção do quanto.
Há muitos anos atrás, depois do meu pai morrer passei por uma fase muito dolorosa e isso abalou bastante o meu relacionamento que aparentava mesmo estar a chegar ao fim. Já em aceitação e a pensar que era melhor começar a fazer triagens e a arrumar caixas com pertences, estou de volta dos livros, e do nada, há um que me cai mesmo em cima do dedo grande do pé e de certeza me fez gritar um palavrão enorme e feio do qual não me orgulho! Sentei-me no chão, ainda a praguejar e amaldicionar o ter nascido tão desastrada no meio de contorções e grunhidos, mas lá me decidi a abrir pela primeira vez o livro da Nita. Julgo que às vezes nem são tanto os conteúdos nem todos os detalhes de um cenário inteiro, mas sim a nossa rendição ao que somos e a necessidade urgente de sermos melhores. Li-o. Todo! Tomei notas mentais. E juro que aprendi coisas que nunca ninguém me tinha ensinado. Consciente, decidi testá-las. E por milagre, acaso ou destino, a relação durou mais dez anos. Passei a dar muito mais valor à mana do meio e estar muito mais atenta ao que me cai em cima dos dedos dos pés.
Colina
Hoje acordei com uma canção na cabeça que trouxe dos grupos de jovens, das catequeses ou se calhar do tempo dos escuteiros. Qualquer coisa assim : "Subiremos montanhas sagradas, colinas suadas do amor cristão. Lá no alto, Jesus nos acena, mostrando o caminho da salvação."
Essa fase de adolescência católica acrescentou um vasto reportório ao histórico das minhas bandas sonoras mentais. Não sei porquê esta foi uma das que me ficou. Lembro-me que numa das casas quando os miúdos eram pequenos, chegava a hora de dormir e subiamos as escadas a cantar, um em cada mão, às vezes um na mão e outro ao colo, e às vezes os dois ao colo, mas ainda com fôlego para imaginar montanhas sagradas que nos faziam suar enquanto caminhavamos para a salvação. Era ritual. Como se a canção lembrasse que no fim de um enorme esforço há um alivio, uma recompensa.
Se calhar essa playlist mental tocava na altura com a intenção de incutir os valores de fé, esperança e resiliência que eu queria passar às minhas crias.
Subir escadas até aí era ao som dos Led Zeppelin, que de certeza também cantaram alto e a bom som para eles que é preciso ensinar tudo o que importa.
Há anos para cá que quando subo escadas só me lembro é que devia fazer mais exercício e que fumar é mesmo parvo.
Não me lembro da salvação, nem das montanhas, nem de Jesus que mostra o caminho. Depois de tantos caminhos cheios de pedregulhos e matos por desbravar e outros cheios de desertos, com alguns oásis, é certo, mas com muitos cansaços e desitratações pelo meio, vamos sentindo que ou temos péssimo sentido de orientação ou Jesus se fartou e foi fazer outras coisas.
Neruda diz que é o amor que nos salva. Mia Couto diz que cozinhar é um acto de amor. E alguém muito sábio - Só a música nos pode salvar.
Esta sabedoria colectiva tem os ingredientes que preciso para me alimentar hoje. Amor. Cozinhar. Música.
Vou para a cozinha salvar o meu mundo.
Essa fase de adolescência católica acrescentou um vasto reportório ao histórico das minhas bandas sonoras mentais. Não sei porquê esta foi uma das que me ficou. Lembro-me que numa das casas quando os miúdos eram pequenos, chegava a hora de dormir e subiamos as escadas a cantar, um em cada mão, às vezes um na mão e outro ao colo, e às vezes os dois ao colo, mas ainda com fôlego para imaginar montanhas sagradas que nos faziam suar enquanto caminhavamos para a salvação. Era ritual. Como se a canção lembrasse que no fim de um enorme esforço há um alivio, uma recompensa.
Se calhar essa playlist mental tocava na altura com a intenção de incutir os valores de fé, esperança e resiliência que eu queria passar às minhas crias.
Subir escadas até aí era ao som dos Led Zeppelin, que de certeza também cantaram alto e a bom som para eles que é preciso ensinar tudo o que importa.
Há anos para cá que quando subo escadas só me lembro é que devia fazer mais exercício e que fumar é mesmo parvo.
Não me lembro da salvação, nem das montanhas, nem de Jesus que mostra o caminho. Depois de tantos caminhos cheios de pedregulhos e matos por desbravar e outros cheios de desertos, com alguns oásis, é certo, mas com muitos cansaços e desitratações pelo meio, vamos sentindo que ou temos péssimo sentido de orientação ou Jesus se fartou e foi fazer outras coisas.
Neruda diz que é o amor que nos salva. Mia Couto diz que cozinhar é um acto de amor. E alguém muito sábio - Só a música nos pode salvar.
Esta sabedoria colectiva tem os ingredientes que preciso para me alimentar hoje. Amor. Cozinhar. Música.
Vou para a cozinha salvar o meu mundo.
sábado, 25 de abril de 2020
Svatantrya
O meu primeiro momento de liberdade do dia é ser a primeira a acordar. Respirar fundo. Ouço a casa em silêncio e escuto os sons lá fora. Faço torradas e uma caneca cheia de café quentinho. Agarro qualquer coisa para ler.
Segundo momento livre - Espreguiçar! Isto faz-me sorrir.
Sempre senti que tenho muita sorte. A minha mãe diz que feliz é quem feliz se julga. Esta teoria também deve funcionar com a sorte. E de certo que com a liberdade também. Nasci com a Revolução.
Ligo a música - Now we are free. Hans Zimmer.
A associação mental que me ocorre são pássaros. Asas. Voar. Liberdade é voar. Voamos quando nos sentimos felizes. Neste divagar já fatiei os pimentos e já estou a picar cebolas. Se não me tivessem feito chorar ainda andava por ai a bater asas. Uma sorte não me cortar!
Volto à terra do sempre com as pontas dos dedos amarelas da curcuma fresca.
-Caril! O cheiro e o sabor intenso das especiarias fazem-me sentir viva. Nem sinto qualquer afinidade à India. Não é de todo aquele país que está na minha rota de destinos imperdíveis, mas toda a sua gastronomia é inexplicável regresso a casa. Naan, chamuças, pakoras...que festim!
Liberdade é dançar! E dançam, as cebolas, os pimentos, a curcuma, o alho e os coentros. Já cheira. Tive tanta pressa de crescer para ser livre. Liberdade também é responsabilidade. Vou mexendo a panela.
Gosto do ritual. O que hoje damos como certo, foi ontem determinação e coragem.
Tiro a casca da manga que me derrete de macia, nas mãos. O meu pai ensinou-me a escolher as mangas. É preciso perceber a consistência certa, o cheiro, a cor. As avermelhadas são as melhores.
Devia ter cravos no jardim. Junto o leite de côco e envolvo. Os legumes e as memórias. Ontem voltei a tentar pintar as pereiras. Podia ser outra árvore qualquer mas as pereiras são mesmo bonitas e agora estão cheias de flores brancas. São as que me fazem sentido. Se calhar não nasci para pintar, mas hei-de tentar até a imagem que guardo passar pelas tintas. Baixo o lume. O fogo brando faz o resto. Vou plantar cravos. Fazer uma celebração. A liberdade é um estado da mente.
Caril sabe a revolução.
segunda-feira, 20 de abril de 2020
Caramelo salgado
Abril, águas mil. Lembro-me ao chegar das entregas do dia, toda ensopada e a sonhar com lareira a crepitar. A minha tia Evangelina é que era barra em provérbios e ditos populares.
-Chuva e sol, as bruxas estão a fazer pão mole.
Vou acendendo a lareira, não é pão que me apetece fazer. Preciso de uma coisa doce, mas estas coxas de quarentena agradeciam alguma contenção. Há um mês e tal inscrevi-me na contemporânea. Quem canta seus males espanta, mas eu afasto os meus a dançar. Já cheira a azinho a arder no ar. Tem que se aquecer a alma e o corpo. Que se lixem as coxas, tenho montes de laranjas, umas madalenas nunca fizeram mal a ninguém. Logo volto à dança contemporânea...Hum, também posso fazer um molho de caramelo. Um nougat com Nozes de macadamia! A culpa é do dia! Todos os dias são bênçãos, mas há uns que temos de lhes espremer bem a polpa até que saia algum sumo. Não há condições. Aqui até nos deixam o pão quentinho à porta. São tudo desculpas para ficar em casa a engordar para alguma coisa que ainda não sabemos o quê. Mas de barrigas felizes, é certo!
-Chuva e sol, as bruxas estão a fazer pão mole.
Vou acendendo a lareira, não é pão que me apetece fazer. Preciso de uma coisa doce, mas estas coxas de quarentena agradeciam alguma contenção. Há um mês e tal inscrevi-me na contemporânea. Quem canta seus males espanta, mas eu afasto os meus a dançar. Já cheira a azinho a arder no ar. Tem que se aquecer a alma e o corpo. Que se lixem as coxas, tenho montes de laranjas, umas madalenas nunca fizeram mal a ninguém. Logo volto à dança contemporânea...Hum, também posso fazer um molho de caramelo. Um nougat com Nozes de macadamia! A culpa é do dia! Todos os dias são bênçãos, mas há uns que temos de lhes espremer bem a polpa até que saia algum sumo. Não há condições. Aqui até nos deixam o pão quentinho à porta. São tudo desculpas para ficar em casa a engordar para alguma coisa que ainda não sabemos o quê. Mas de barrigas felizes, é certo!
-Maiores olhos que barriga! Lá faço as madalenas e já estou a mexer o caramelo que impregna o ar. Devia encontrar a outra nuvem, aquela que faz dispensar açúcares, onde encontramos o centro. Queimar um incenso, fazer uma meditação, ver se me sai algo que inspire. Isto de inspirar pessoas é uma responsabilidade que pesa mais que a balança. - Há mais marés que marinheiros!
Vou esmagando as macadamias, dividida entre o coração e a razão. Deixo para amanhã o que devia fazer hoje. Hoje, vou fazer como a chuva e cair. No sofá, com madalenas e nougat!
Vou esmagando as macadamias, dividida entre o coração e a razão. Deixo para amanhã o que devia fazer hoje. Hoje, vou fazer como a chuva e cair. No sofá, com madalenas e nougat!
sábado, 18 de abril de 2020
Prelúdio
Há muitos, muitos anos tive um namorado que adorava a minha voz e passava a vida a dizer - Devias fazer rádio.
Eu não vivo sem música. E todas as boas histórias tem um som. Sempre. Há sempre música ou comida no ar!
A vida tem que ter banda sonora mesmo que às vezes seja só dentro da minha cabeça.
Sou a mais nova de quatro e tenho uma memória eficiente, ou tinha, e um conhecimento musical herdado acima da média, que devo ao meu irmão Paulo.
Enfim, parece que reunia as condições necessárias para ter o meu próprio programa de rádio e o dever de partilhar com o mundo do outro lado da antena, a minha voz e o meu bom gosto e conhecimento musical, segundo o rapaz. O amor é cego. Já sabemos. Posto isto, e já completamente convencida, tenho um dos meus impulsos num dia em que vou a passar na avenida de Ceuta (onde era a sede da TSF e da Rádio Energia que já se tinha transformado em FM Radical) e decido estacionar em frente ao edifício e subir ao segundo andar onde peço para falar com o locutor de serviço. Eu tinha uns 21 anos, está bem? É a ternura dos quarenta e a loucura dos vinte.
Subo! O ambiente era informal e, ou movido pela curiosidade ou pelo espanto, o Simões lá me ouviu entre canções da playlist, a confessar entusiasmada e divertidíssima que tinha um namorado que dizia que eu devia fazer rádio e por isso ali estava. Achou-me graça, talvez pela coragem inconsciente, acima de tudo. Convidou-me para participar num programa de domingo com o Jorge Gabriel. E foi daqui, do Ferro Velho e da festa na discoteca mais in dos anos noventa que vim a conhecer o pai dos meus filhos. Ligado à restauração e a cozinhar como um Chef em casa - o melhor que já conheci até hoje - foi-me despertando a vontade de um projecto comum no ramo. E eu apesar de morar sozinha e fazer sempre a minha própria comida estava longe de sentir que tinha nascido para isso. Mas agradou-me a idéia. Porque não? Se calhar, há uma altura para as coisas se revelarem em nós, como aqueles virus - ou serão bactérias? - que temos sempre mas que só se manifestam em determinadas condições. Adiante! O projecto acabou por surgir e a minha função era um género de relações publicas, anfitriã, gestora, patroa. Talvez de tudo isto, tivesse algum jeito para relações públicas quando não estava em fase pré-menstrual ou a lua em cheia. Ou seja, às vezes não tenho jeito nem para as relações nem para publico, pronto.
Quis o destino ou o acaso que nesse projecto trabalhasse para nós uma pasteleira, excelente, por sinal, mas com a qual eu raramente estava de acordo. Vinha de um formato de pastelaria industrial, cake design e essas coisas muito perfeitinhas que não se enquadram nada na minha mente rustica.
As sobremesas têm que despertar as nossas memórias- é isso que a comida deve fazer. A comida e a música, claro. Era a tarte de maçã da minha sogra, o bolo de bolacha da minha tia Melita, o pão de Ló da minha avó Maria do Rosário, o doce de ovos com amêndoas torradas que o meu pai fazia e que dá origem à base das minhas Pérolas. Memórias!
Todos os dias a pasteleira fazia de uma maneira e eu dizia que preferia de outra, por exemplo- uma tarte de maçã na minha cabeça não pode ter um aspecto sofisticado. As maçãs são densas e as reinetas nem devem muito à elegância, são grosseironas, do campo! A tarte tem de ser coerente, brilhar pelos sabores e pelas viagens a que nos transporta até ao tempo em que não se pincelavam os bolos com glaces vendidas em pacotes.
Enfim, a miúda bem se esforçava e quanto mais bonitos e arranjadinhos eram os acabamentos mais eu reclamava. Houve um dia que se fartou e teve a lucidez de me enfrentar e mudar a minha vida… - “Se a Angela nunca está satisfeita com o que faço e até sabe o que quer, porque não faz você?”
E foi assim, com um “acorda e faz tu” que comecei de volta dos fornos e das batedeiras, com aquela sorte de principiante de quem não faz a menor ideia do que está a fazer, mas a não querer dar parte fraca e sempre com muita audácia, como em quase tudo na minha vida.
E curiosamente sem estar muito preocupada com as regras e com aquele rigor que é do senso comum que tem a pastelaria, lá fui arriscando; e melhor que tudo, as pessoas iam gostando mesmo do que eu fazia. Fui abandonando as relações publicas e aprofundando cada vez mais a relação com o açúcar e os ovos, o chocolate derretido e as combinações espontâneas e improváveis.
Eu não vivo sem música. E todas as boas histórias tem um som. Sempre. Há sempre música ou comida no ar!
A vida tem que ter banda sonora mesmo que às vezes seja só dentro da minha cabeça.
Sou a mais nova de quatro e tenho uma memória eficiente, ou tinha, e um conhecimento musical herdado acima da média, que devo ao meu irmão Paulo.
Enfim, parece que reunia as condições necessárias para ter o meu próprio programa de rádio e o dever de partilhar com o mundo do outro lado da antena, a minha voz e o meu bom gosto e conhecimento musical, segundo o rapaz. O amor é cego. Já sabemos. Posto isto, e já completamente convencida, tenho um dos meus impulsos num dia em que vou a passar na avenida de Ceuta (onde era a sede da TSF e da Rádio Energia que já se tinha transformado em FM Radical) e decido estacionar em frente ao edifício e subir ao segundo andar onde peço para falar com o locutor de serviço. Eu tinha uns 21 anos, está bem? É a ternura dos quarenta e a loucura dos vinte.
Subo! O ambiente era informal e, ou movido pela curiosidade ou pelo espanto, o Simões lá me ouviu entre canções da playlist, a confessar entusiasmada e divertidíssima que tinha um namorado que dizia que eu devia fazer rádio e por isso ali estava. Achou-me graça, talvez pela coragem inconsciente, acima de tudo. Convidou-me para participar num programa de domingo com o Jorge Gabriel. E foi daqui, do Ferro Velho e da festa na discoteca mais in dos anos noventa que vim a conhecer o pai dos meus filhos. Ligado à restauração e a cozinhar como um Chef em casa - o melhor que já conheci até hoje - foi-me despertando a vontade de um projecto comum no ramo. E eu apesar de morar sozinha e fazer sempre a minha própria comida estava longe de sentir que tinha nascido para isso. Mas agradou-me a idéia. Porque não? Se calhar, há uma altura para as coisas se revelarem em nós, como aqueles virus - ou serão bactérias? - que temos sempre mas que só se manifestam em determinadas condições. Adiante! O projecto acabou por surgir e a minha função era um género de relações publicas, anfitriã, gestora, patroa. Talvez de tudo isto, tivesse algum jeito para relações públicas quando não estava em fase pré-menstrual ou a lua em cheia. Ou seja, às vezes não tenho jeito nem para as relações nem para publico, pronto.
Quis o destino ou o acaso que nesse projecto trabalhasse para nós uma pasteleira, excelente, por sinal, mas com a qual eu raramente estava de acordo. Vinha de um formato de pastelaria industrial, cake design e essas coisas muito perfeitinhas que não se enquadram nada na minha mente rustica.
As sobremesas têm que despertar as nossas memórias- é isso que a comida deve fazer. A comida e a música, claro. Era a tarte de maçã da minha sogra, o bolo de bolacha da minha tia Melita, o pão de Ló da minha avó Maria do Rosário, o doce de ovos com amêndoas torradas que o meu pai fazia e que dá origem à base das minhas Pérolas. Memórias!
Todos os dias a pasteleira fazia de uma maneira e eu dizia que preferia de outra, por exemplo- uma tarte de maçã na minha cabeça não pode ter um aspecto sofisticado. As maçãs são densas e as reinetas nem devem muito à elegância, são grosseironas, do campo! A tarte tem de ser coerente, brilhar pelos sabores e pelas viagens a que nos transporta até ao tempo em que não se pincelavam os bolos com glaces vendidas em pacotes.
Enfim, a miúda bem se esforçava e quanto mais bonitos e arranjadinhos eram os acabamentos mais eu reclamava. Houve um dia que se fartou e teve a lucidez de me enfrentar e mudar a minha vida… - “Se a Angela nunca está satisfeita com o que faço e até sabe o que quer, porque não faz você?”
E foi assim, com um “acorda e faz tu” que comecei de volta dos fornos e das batedeiras, com aquela sorte de principiante de quem não faz a menor ideia do que está a fazer, mas a não querer dar parte fraca e sempre com muita audácia, como em quase tudo na minha vida.
E curiosamente sem estar muito preocupada com as regras e com aquele rigor que é do senso comum que tem a pastelaria, lá fui arriscando; e melhor que tudo, as pessoas iam gostando mesmo do que eu fazia. Fui abandonando as relações publicas e aprofundando cada vez mais a relação com o açúcar e os ovos, o chocolate derretido e as combinações espontâneas e improváveis.
sexta-feira, 17 de abril de 2020
Sinais
Hoje fui ao correio enviar cartas. Estou com a sensibilidade à flor da pele. De onde virá esta expressão, a propósito? Mas pronto, sinto saudade e apetece-me enviar carinho a quem gosto de todas as formas possíveis. Fiquei à porta, só entra uma pessoa de cada vez. O correio segue, mas demora a chegar. Faz-se o que se pode. Enquanto espero distraio-me com os titulos dos livros no balcão. Os olhos fixam uma capa azul celeste - "Sinais, o universo fala consigo. Saiba como compreender."
Começo a viajar. Eu acredito em sinais, o que conta é o que acreditamos, mesmo que sejam anjos, fadas ou no pai natal. Se acreditamos, existe para nós e dá-nos sentido e isso basta. Chega a minha vez. Sigo o impulso, estou a transbordar de impulsos contidos e enquanto entrego as cartas, agarro o livro. Na contra capa leio um comentário de um autor que me é muito familiar e que me iniciou nestas coisas de acreditar no invisível - isto só pode ser um sinal!
Paguei o livro e os selos e segui para o carro com a sensação de quem encontrou um mapa de tesouro. Sento-me e faço o que é habito quando tenho um livro novo, abro aleatoriamente e vejo o que me diz. Isto normalmente determina se a leitura será pausada ou compulsiva. Outro sinal...
Provavelmente a quem não liga a acontecimentos que não são validados cientificamente tudo isto não passará de pura fantasia ou alucinação. Mas basicamente o que me importa é o que resulta comigo e eu sou feliz com as linhas que me cosem. Há catorze anos, logo depois da chegada da primavera, o meu pai foi para o outro plano. Naturalmente e sem nada que nos preparasse antecipadamente, foi de uma tristeza incomensurável para todos. E a mim dá-me sempre uma enorme aflição não conseguir aliviar o sofrimento dos que amo. À boa maneira de quem tenta sempre procurar a ordem no meio do caos, imprimi para a minha mãe e para os meus irmãos um texto que saquei da net que se chama - A morte nada é. Atribuido a Henry Scott-Holland e a mais uma carrada de autores. Irrelevante, aqui. O conteúdo era o que me interessava. Colei uma foto do meu pai a sorrir e tive esperança que de alguma forma conseguiria aliviar as tristezas. Hoje, passados todos esses anos, esse texto está na página aleatória que acabo de abrir.
Começo a viajar. Eu acredito em sinais, o que conta é o que acreditamos, mesmo que sejam anjos, fadas ou no pai natal. Se acreditamos, existe para nós e dá-nos sentido e isso basta. Chega a minha vez. Sigo o impulso, estou a transbordar de impulsos contidos e enquanto entrego as cartas, agarro o livro. Na contra capa leio um comentário de um autor que me é muito familiar e que me iniciou nestas coisas de acreditar no invisível - isto só pode ser um sinal!
Paguei o livro e os selos e segui para o carro com a sensação de quem encontrou um mapa de tesouro. Sento-me e faço o que é habito quando tenho um livro novo, abro aleatoriamente e vejo o que me diz. Isto normalmente determina se a leitura será pausada ou compulsiva. Outro sinal...
Provavelmente a quem não liga a acontecimentos que não são validados cientificamente tudo isto não passará de pura fantasia ou alucinação. Mas basicamente o que me importa é o que resulta comigo e eu sou feliz com as linhas que me cosem. Há catorze anos, logo depois da chegada da primavera, o meu pai foi para o outro plano. Naturalmente e sem nada que nos preparasse antecipadamente, foi de uma tristeza incomensurável para todos. E a mim dá-me sempre uma enorme aflição não conseguir aliviar o sofrimento dos que amo. À boa maneira de quem tenta sempre procurar a ordem no meio do caos, imprimi para a minha mãe e para os meus irmãos um texto que saquei da net que se chama - A morte nada é. Atribuido a Henry Scott-Holland e a mais uma carrada de autores. Irrelevante, aqui. O conteúdo era o que me interessava. Colei uma foto do meu pai a sorrir e tive esperança que de alguma forma conseguiria aliviar as tristezas. Hoje, passados todos esses anos, esse texto está na página aleatória que acabo de abrir.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Posalosa
É curioso, ao longo da nossa vida termos detalhes que nos acompanham como sombras, ou luzes - depende da perspectiva - mas ao mesmo tempo irmos sofrendo metamorfoses noutros aspectos. Será aleatório o que muda e o que mantemos? Seremos como árvores com um tronco inteiro, que libertam folhas que já não servem para dar lugar a outras? Afinal, florescemos e deixamos frutos das nossas experiências por ai...Por falar em frutos, hoje estou de volta da horta. Chove aquela chuva miudinha que não acrescenta nem alivia, só para mostrar que cai porque pode. Planto acelgas que nos mercados bio das cidades são vendidas a peso de ouro. Aqui nascem à beira da estrada. De certeza que não escolhem onde criam raizes e não têm crises existenciais nem diálogos internos filosóficos. Faz um mês e tal deste ritmo e eu sinto-me mais ou menos como em miúda quando as férias grandes pareciam durar mais que o resto do ano e chegava ao fim de Agosto cheia de vontade de voltar à escola e à rotina.
Nem parece meu, é verdade.
Se calhar, isso mudou. Por outro lado, fiquei mais corajosa. Era uma grande medricas em miúda, vicissitudes de ser a mais nova de quatro, cheia de mimos por todos os lados.
A minha professora de estilismo passava a vida a deixar notas nos meus croquis - Solte-se! Arriscar mais!! E aqui já era bem mais crescida. Será a coragem que dá criatividade ou a criatividade que traz coragem? Tenho a certeza que estão ligadas, mas é só uma das minhas teorias Angelicas de um manual de vida que só a mim é útil. Acho que comprovo diariamente essa teoria no departamento em que me é tão fácil improvisar que já o faço de olhos fechados. Cozinha! Deu-me para acelgas recheadas com arroz de feijão. Inspiração da horta e da cabeça fria da chuva. As coisas boas é que dão sentido ao dia.
Nem parece meu, é verdade.
Se calhar, isso mudou. Por outro lado, fiquei mais corajosa. Era uma grande medricas em miúda, vicissitudes de ser a mais nova de quatro, cheia de mimos por todos os lados.
A minha professora de estilismo passava a vida a deixar notas nos meus croquis - Solte-se! Arriscar mais!! E aqui já era bem mais crescida. Será a coragem que dá criatividade ou a criatividade que traz coragem? Tenho a certeza que estão ligadas, mas é só uma das minhas teorias Angelicas de um manual de vida que só a mim é útil. Acho que comprovo diariamente essa teoria no departamento em que me é tão fácil improvisar que já o faço de olhos fechados. Cozinha! Deu-me para acelgas recheadas com arroz de feijão. Inspiração da horta e da cabeça fria da chuva. As coisas boas é que dão sentido ao dia.
terça-feira, 14 de abril de 2020
A árvore
E se a vida for só isto?
Este é o pensamento que me atormenta nos últimos dias.
E se não passa mesmo de um castigo divino para começarmos a dar valor ao que importa? Eu achava que já dava...
O que é certo é que as prioridades estão a mudar. A todos os níveis.
Antes de pensar no que vou fazer para o almoço, tenho que me lembrar que preciso não me esquecer de sobreviver.
Sento-me lá fora numa pausa a ouvir o silêncio e a reparar na enorme sorte que tenho tido. Todos os dias respiro fundo e tento perceber se o ar me contínua a fluir leve ou se começa a pesar. Estou bem. Mais um dia. Volto a respirar fundo e vou para a cozinha tratar da massa folhada para rechear com mascarpone e framboesas. O transe culinário, ajuda-me a desviar o assunto. Olho no reflexo da janela e descubro entretanto que as minhas sobrancelhas no formato original põem as da Frida Khalo a um canto. Há tantos anos que são contornadas, que já nem sei (e ainda bem) como são na génese. Contornadas, mas não por mim, que percebo a falta de jeito que tenho para as tarefas de cuidados femininos.
Tenho de corrigir isso!
O pensamento foge-me outra vez.
Não são só os miúdos que estão a ter aulas em casa. Nós parece que também. Estamos ou não a aprender a viver diferente, a cortar hábitos e padrões?
Se isto não é uma escola não sei o que será. Custa-me mesmo é cortar nos abraços e nos beijos. Será que também vamos aprender novas formas de manifestar o afecto sem o toque? Preferia cortar nos hidratos de carbono.
Sorte a dos bichos que não sofrem com estas regras e se rebolam sem preocupações.
Já cheira a massa folhada que alourou entretanto. Começou a trovejar. Ouço o carteiro. Recebi um postal! Confesso que sinto este regresso às tradições bonitas como uma benção. É bom ter o essencial. O essencial é muito menos do que julgamos. E é bom ler em papel e não receber só contas e promoções do supermercado.
Um postal manuscrito é uma impressão digital que nos entra pela caixa do correio. Sente-se a presença de quem escreve, além da voz, em cada palavra. Um abraço de papel de um ramo da mesma árvore.
Este é o pensamento que me atormenta nos últimos dias.
E se não passa mesmo de um castigo divino para começarmos a dar valor ao que importa? Eu achava que já dava...
O que é certo é que as prioridades estão a mudar. A todos os níveis.
Antes de pensar no que vou fazer para o almoço, tenho que me lembrar que preciso não me esquecer de sobreviver.
Sento-me lá fora numa pausa a ouvir o silêncio e a reparar na enorme sorte que tenho tido. Todos os dias respiro fundo e tento perceber se o ar me contínua a fluir leve ou se começa a pesar. Estou bem. Mais um dia. Volto a respirar fundo e vou para a cozinha tratar da massa folhada para rechear com mascarpone e framboesas. O transe culinário, ajuda-me a desviar o assunto. Olho no reflexo da janela e descubro entretanto que as minhas sobrancelhas no formato original põem as da Frida Khalo a um canto. Há tantos anos que são contornadas, que já nem sei (e ainda bem) como são na génese. Contornadas, mas não por mim, que percebo a falta de jeito que tenho para as tarefas de cuidados femininos.
Tenho de corrigir isso!
O pensamento foge-me outra vez.
Não são só os miúdos que estão a ter aulas em casa. Nós parece que também. Estamos ou não a aprender a viver diferente, a cortar hábitos e padrões?
Se isto não é uma escola não sei o que será. Custa-me mesmo é cortar nos abraços e nos beijos. Será que também vamos aprender novas formas de manifestar o afecto sem o toque? Preferia cortar nos hidratos de carbono.
Sorte a dos bichos que não sofrem com estas regras e se rebolam sem preocupações.
Já cheira a massa folhada que alourou entretanto. Começou a trovejar. Ouço o carteiro. Recebi um postal! Confesso que sinto este regresso às tradições bonitas como uma benção. É bom ter o essencial. O essencial é muito menos do que julgamos. E é bom ler em papel e não receber só contas e promoções do supermercado.
Um postal manuscrito é uma impressão digital que nos entra pela caixa do correio. Sente-se a presença de quem escreve, além da voz, em cada palavra. Um abraço de papel de um ramo da mesma árvore.
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